Talento, autenticidade e uma infância que desafia limites
Aos 9 anos, o modelo e influenciador kids de Mogi Mirim constrói uma trajetória entre passarelas, esportes, música e redes sociais, mostrando que nenhuma definição é maior do que a liberdade de descobrir quem se pode ser.
Há crianças que descobrem a câmera. Outras parecem crescer entendendo intuitivamente a linguagem que existe entre a lente e quem está diante dela. Com Lucca Pereira Varzini, ou simplesmente Lucca Varzini, essa relação começou quase junto com a própria infância. Aos 9 anos, o garoto de Mogi Mirim, interior de São Paulo, já reúne experiências como modelo, influenciador e participante de desfiles, mas é justamente aquilo que acontece fora dos holofotes que ajuda a compreender quem ele está se tornando. Comunicativo, animado, inteligente e descrito como alguém que aprende com rapidez, Lucca parece enxergar o mundo como um território permanentemente aberto à descoberta.
Muito antes de existir qualquer ideia de carreira, as fotografias já faziam parte de sua história. Desde pequeno, Lucca gostava de ser fotografado e de criar poses espontaneamente enquanto a mãe registrava seu crescimento. O que poderia ter permanecido apenas como um álbum afetivo de família começou, aos poucos, a ganhar outra dimensão. Vieram as agências, os primeiros desfiles, os trabalhos fotográficos, participações em produções voltadas ao universo de pais e filhos e campanhas para lojas de roupas de sua região. A virada aconteceu justamente quando ele começou a desfilar. A passarela deixou de ser apenas mais uma experiência para revelar um lugar no qual ele se sentia genuinamente confortável.
A desenvoltura, entretanto, convive com uma característica que dificilmente seria percebida por quem acompanha apenas sua presença diante das câmeras. Lucca conta que, no início, costuma ser tímido. A afirmação parece quase contraditória quando colocada ao lado da criança que desfila, posa, conversa e se entrega às experiências com intensidade. Talvez esteja justamente aí uma das nuances mais interessantes de sua personalidade: sua segurança não parece nascer da necessidade permanente de ocupar o centro das atenções, mas da capacidade de se adaptar ao ambiente e, no tempo dele, encontrar espaço para ser quem é.
Hoje, sua vida está longe de se resumir à moda. Entre estudos e atividades extracurriculares, Lucca pratica jiu-jítsu e boxe, além de se dedicar à música, estudando violão e teclado, e ao aprendizado de inglês. A natação também fez parte de sua rotina até uma lesão interromper temporariamente a atividade. Sua curiosidade musical não para nos instrumentos que já estuda: a flauta está entre os próximos interesses que deseja explorar. É uma agenda incomum para alguém tão jovem, mas coerente com a personalidade descrita por quem convive com ele: uma criança movida por desafios, aventura, adrenalina e pela vontade constante de aprender algo novo.
Essa multiplicidade também ajuda a explicar por que seu conteúdo digital não segue uma construção excessivamente calculada. Nas redes sociais, Lucca mostra principalmente aquilo que efetivamente faz parte de sua vida: o cotidiano, os esportes, os momentos de diversão e os brinquedos educativos aparecem como extensões naturais de sua rotina. Em um ambiente no qual até a espontaneidade frequentemente se transforma em estratégia, existe algo particularmente contemporâneo em simplesmente registrar a experiência enquanto ela acontece. Para Lucca, autenticidade significa justamente isso: não fabricar uma personalidade para as redes, mas permitir que elas acompanhem a própria infância.
Sua relação com a moda, no entanto, ocupa um espaço especial. Entre suas conquistas, Lucca destaca a experiência de ter sido Mister São Paulo, além de sua ligação afetiva com os desfiles. Mais importante do que enumerar títulos, talvez seja observar como ele próprio define sucesso: ser feliz naquilo que faz. Aos nove anos, quando tantas expectativas externas começam precocemente a disputar espaço com os desejos das crianças que aparecem na internet, essa percepção é particularmente significativa. Existe ambição, mas ela ainda preserva o prazer que deu início a tudo
Também existem desafios. Lucca deseja ampliar sua presença digital, conquistar mais seguidores e fortalecer o engajamento de seu conteúdo. Para os próximos anos, imagina ultrapassar a marca de 100 mil seguidores, ampliar sua participação em desfiles e representar grandes marcas. Seu maior sonho profissional segue nessa direção: tornar-se rosto de uma marca de projeção nacional ou internacional. Moda, esportes, brinquedos e segmentos ligados ao universo infantil aparecem naturalmente entre os territórios nos quais sua imagem pode transitar.
Mas reduzir sua história a números, títulos ou campanhas seria perder justamente o elemento que mais a diferencia. Há uma mensagem que Lucca deseja levar para quem o acompanha: um diagnóstico não é capaz de definir integralmente uma pessoa. No formulário que fundamenta esta reportagem, ele é apresentado como uma criança autista e com altas habilidades, descrita como superdotada, com QI informado de 140. O dado, porém, aparece em sua trajetória não como rótulo, mas como parte de uma identidade muito mais ampla, composta por interesses, afetos, conquistas, desafios e uma curiosidade que parece atravessar cada nova experiência.
Essa perspectiva ganha ainda mais força quando Lucca fala sobre aquilo que deseja transmitir ao público. Sua mensagem é simples na formulação, mas poderosa no significado: somos únicos e podemos construir nossas próprias possibilidades. Em vez de permitir que definições externas estabeleçam antecipadamente os limites de uma criança, sua história aponta para outra direção — aquela em que particularidades são reconhecidas sem substituir a pessoa inteira. Antes de qualquer condição, existe Lucca: o menino que gosta de posar, de desfilar, de aprender instrumentos, de praticar esportes, de enfrentar desafios e de descobrir até onde sua curiosidade pode levá-lo.
Por trás dessa energia existe também uma dimensão profundamente afetiva. Quando questionado sobre aquilo que o move diariamente, Lucca responde de forma direta: o amor de sua mãe. E quando fala da lembrança que mais o marcou, surge uma história muito mais delicada. A perda do avô Luiz ocupa um lugar importante em sua memória. Lucca relata que o avô exerceu para ele uma presença paterna tão significativa que, quando lhe perguntavam o nome do pai, sua resposta era “vovô Luiz”. É uma dessas lembranças que revelam, em poucas palavras, a dimensão dos vínculos que ajudam a formar uma criança muito antes de qualquer reconhecimento público.
Talvez seja justamente por isso que a trajetória de Lucca encontre sua força não na tentativa de transformá-lo precocemente em uma personagem pronta, mas em permitir que continue sendo uma criança em construção. Existe um modelo que cresce diante das câmeras, um influenciador que começa a compreender as possibilidades do digital e um menino que sonha com grandes marcas e passarelas maiores. Mas existem também o estudante, o esportista, o músico iniciante, o filho, o neto e a criança curiosa que ainda quer descobrir coisas novas.
A moda sempre foi fascinada por aquilo que anuncia o próximo movimento. No caso de Lucca Varzini, talvez seja cedo — e desnecessário — tentar prever exatamente onde essa história vai chegar. Aos nove anos, o mais interessante não está em definir seu destino, mas em perceber a quantidade de caminhos que já despertam sua atenção. Porque antes de representar uma grande marca, conquistar milhares de seguidores ou alcançar uma nova passarela, Lucca parece estar aprendendo algo muito mais importante: que crescer também significa descobrir, pouco a pouco, a própria maneira de ocupar o mundo.